terça-feira, 9 de agosto de 2011

SATANÁS (Gibran Khalil Gibran)

Gibran Khalil Gibran escreveu uma história sensacional para ilustrar a utilidade de Satanás:


SATANÁS (Gibran Khalil Gibran)


O Padre Simão era conhecedor profundo dos assuntos espirituais e teológicos, versado nos segredos do pecado venial e mortal e nos mistérios do Inferno, Purgatório e Paraíso. Percorria as aldeias do Líbano do Norte, pregando penitência aos fiéis, curando suas almas do mal e prevenindo-os contra as armadilhas do demônio, a quem padre Simão combatia dia e noite sem desanimar e sem descansar. Os camponeses veneravam padre Simão e gostavam de comprar suas preleções e preces com prata e ouro, e disputavam o privilégio de presenteá-lo com o melhor de suas colheitas.
Certa tarde de outono, padre Simão caminhava por um lugar isolado em direção a uma aldeia perdida entre aqueles montes e vales, quando ouviu gemidos dolorosos vindos da beira da estrada. Olhou e viu um homem desnudo, estendido sobre o pedregulho; o sangue jorrava-lhe de feridas profundas na cabeça e no peito, e ele implorava socorro: “Salva-me! Ajuda-me! Tem pena de mim! Estou morrendo.”
O padre parou, perplexo, considerou o homem e concluiu: “Deve ser algum
salteador, que atacou um viajante e foi repelido. Está agonizando. Se expirar em minhas mãos, responsabilizar-me-ão pela sua morte.”
E reiniciou sua marcha. Mas o moribundo deteve-o de novo: “Não me abandones, não me abandones. Tu me conheces e eu te conheço. Vou morrer se não me socorreres.”
O padre empalideceu, e pensou: “Deve ser um dos loucos que vagueiam por estas campinas. O aspecto dos seus ferimentos me arrepia. Em que posso ajudá-lo? O médico das almas não cura os corpos.”
E andou mais alguns passos. Mas o ferido lançou um grito que comoveria até as pedras: “Aproxima-te de mim. Somos amigos há muito tempo. És o padre Simão, o bom pastor; e eu não sou um salteador nem um louco. Aproxima-te de mim para que te diga quem sou.”
O padre aproximou-se, inclinou-se sobre o moribundo e viu uma face estranha, na qual se misturavam a inteligência e a astúcia, a fealdade e a beleza, a perversidade e a doçura. Recuou e gritou: “Quem és tu? Nunca te vi em minha vida.”
O moribundo mexeu-se ligeiramente, fitou os olhos do padre com um sorriso significativo, e disse numa voz profunda e suave: “Eu sou Satanás.”
O padre soltou um grito terrível, que ecoou pelos recantos daquele vale, examinou novamente seu interlocutor, verificou sua semelhança com a figura dos demônios pintados na do Juízo Final que guarnecia a parede da igreja da aldeia,e bradou, trêmulo: “Deus me revelou tua face infernal para alimentar meu ódio por ti. Sê maldito até o fim dos tempos!”
O demônio respondeu com certa impaciência: “Não sabes o que dizes, e não calculas o crime que cometes contra ti mesmo. Eu fui e continuo a ser a causa de teu bem-estar e de tua felicidade. Menosprezas meus benefícios e negas meu mérito, enquanto vives à minha sombra? Não foi minha existência a justificação da profissão que escolheste, e meu nome, o lema de tua vida? Que outra profissão abraçarias, se o destino decretasse a minha morte e os ventos desvanecessem o meu nome?
“Há vinte e cinco anos, percorres estas aldeias para prevenir os homens contra minhas armadilhas, e eles compram tuas preleções com seu dinheiro e os frutos dos seus campos. Que outra coisa comprariam de ti amanhã, se soubessem que seu inimigo, o demônio, morreu e que estão livres dos seus malefícios?
“Não sabes, em tua ciência, que quando a causa desaparece, as consequências desaparecem também? Como aceitas, pois, que eu morra e que tu percas, assim, tua posição e o ganha-pão de tua família?”
O demônio calou-se. Os traços do seu rosto não exprimiam mais a súplica, mas, antes, a confiança. Depois, falou de novo:
“Ouve-me, ó impertinente ingênuo, e te mostrarei a verdade que liga meu destino ao teu. Na primeira hora da existência, o homem pôs-se de pé diante do sol, estendeu os braços e clamou: ‘Atrás das estrelas, há um Deus poderoso, que ama o bem.’ Depois, virou as costas ao sol e viu sua sombra alongada no chão, e gritou: ‘E nas profundezas da terra, há um demônio maldito, que gosta do mal.’ “E o homem voltou à sua gruta, murmurando: ‘Estou entre dois deuses terríveis: um é meu protetor; o outro, meu inimigo.’ E durante séculos, o homem sentiu-se vagamente dominado por duas forças: uma boa, que ele abençoava; outra má, que ele amaldiçoava.
“Depois, apareceram os sacerdotes e eis, meu irmão, a história de sua aparição: Havia, na primeira tribo que se formou sobre a terra, um homem chamado Laús, que era inteligente, mas preguiçoso. Destestava os trabalhos braçais de que se vivia naquela época, e muitas vezes tinha que dormir de estômago vazio.
“Numa noite de verão, quando os membros da tribo estavam reunidos em volta do chefe, a conversar descansadamente, um deles levantou-se, de repente,apontou para a lua e disse com medo: ‘Olhem para o deus da noite: sua cor empalideceu, ele está se transformando numa pedra preta.’ “Todos olharam a lua, e tremeram. Então, Laús, que tinha visto outros eclipses, levantou-se no meio da assembleia, ergueu os braços ao céu e, pondo em sua voz todo o fingimento de que era capaz, disse piedosamente: ‘Prosternaivos,meus irmãos, e orai; pois o deus das trevas está agredindo o deus incandescente da noite. Se o primeiro vencer, morreremos; se for derrotado,viveremos. Orai para que vença o deus da lua’.
“E Laús continuou a falar, até que a lua voltou ao seu esplendor natural. Os presentes ficaram maravilhados e manifestaram sua alegria com canções de danças. E o chefe da tribo disse a Laús: ‘Conseguiste, esta noite, o que nenhum mortal conseguiu antes de ti. E descobriste segredos do universo que nenhum de nós conhecia. Regozija-te, pois a partir de hoje serás o segundo homem da tribo, depois de mim. Eu sou o mais valente e o mais forte, e tu és o mais culto e o mais sábio. Serás, portanto, o intermediário entre os deuses e mim, revelando-me seus segredos e ensinando-me o que devo fazer para merecer sua aprovação e sua benevolência.’“Respondeu Laús: ‘Tudo o que os deuses me revelarem no meu sonho, eu te revelarei ao despertar. Serei o intercessor entre os deuses e ti.’ “O cacique regozijou-se e presenteou Laús com dois cavalos, sete bois, setenta cordeiros e setenta ovelhas. E disse-lhe: ‘Os homens da tribo construir-teão uma casa igual à minha e oferecer-te-ão, em cada colheita, parte dos frutos da terra. Mas, dize-me, quem é esse deus do mal, que se atreveria a agredir o deus resplandecente?’“Laús respondeu: ‘É o demônio, o maior inimigo do homem, a força que desvia a marcha do furacão para as nossas casas, que manda a seca às nossas plantações e as moléstias aos nossos rebanhos, que se alegra com nossa infelicidade e se entristece com nossos júbilos. Precisamos estudar seus humores e táticas para prevenir seus malefícios e frustrar seus ardis.’“O cacique apoiou a cabeça em seu cajado e sussurrou: ‘Sei agora o que ignorava: a humanidade saberá também o que sei e te honrará, Laús, porque nos revelaste os mistérios do nosso terrível inimigo e nos ensinaste a combatê-lo vitoriosamente.’ “E Laús voltou à sua tenda, eufórico com sua habilidade e imaginação. E o cacique e seus homens passaram uma noite povoada de pesadelos. “Assim apareceram os sacerdotes no mundo. E minha existência foi a causa de sua aparição. Laús foi o primeiro a fazer da luta contra mim a sua profissão. Mais tarde, a profissão prosperou e evoluiu até se tornar uma arte fina e sagrada, que abraçam somente os espíritos maduros e as almas nobres e os corações puros e as vastas imaginações.
“Em cada cidade que se erguia à face do sol, meu nome era o centro das organizações religiosas e culturais e artísticas e filosóficas. Eu construía os mosteiros e os ermitérios sobre o medo, e fundava os caberés e os bordéis sobre a luxúria e o gozo. Sou o pai e a mãe do pecado. Queres que o pecado morra,com minha morte?
“Curioso é que me esfalfei a mostrar-te uma verdade que conheces melhor do que eu, e que serve a teus interesses ainda mais do que aos meus. Agora, faze o que quiseres. Carrega-me em tuas costas para tua casa e medica meus ferimentos, ou deixa-me agonizar e morrer aqui!”
Enquanto o demônio discursava, o padre Simão se agitava e esfregava as mãos. Depois, disse numa voz encabulada e hesitante: “Sei agora o que ignorava há uma hora; perdoa, pois, minha ingenuidade: Sei que estás no mundo para tentar, e a tentação é a medida com que Deus determina o valor das almas.
“Sei agora que, se morreres, a tentação morrerá contigo, e assim desaparecerão as forças que obrigam o homem à prudência e o levam a rezar,jejuar e adorar. Deves viver, porque sem ti os homens deixarão de temer o inferno e mergulharão nos vícios. Tua vida é, portanto, necessária à salvação da Humanidade; e eu sacrificarei meu ódio por ti no altar do meu amor pela Humanidade.”
O demônio soltou uma gargalhada similar à explosão dos vulcões, e disse:“Que inteligência e que habilidade, ó reverendo padre! E que conhecimento sutil da teologia! Com tua perspicácia, criaste uma justificativa para a minha existência, que eu próprio ignorava.”
Então, o padre Simão aproximou-se do demônio, carregou-o às costas e prosseguiu no seu caminho.

Livro: Temporais
Autor: Gibran Khalil Gibran
Tradução e apresentação: Mansour Challita
Editora: Acigi

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O que realmente importa?

"Minha avó era uma pessoa maravilhosa.Ela me ensinou a jogar Banco Imobiliário. Ela entendia que o objetivo do jogo é comprar.Ela acumulava tudo o que podia e sempre acabava dominando o tabuleiro. E depois ela sempre me dizia a mesma coisa.
Ela olhava para mim e dizia: "um dia você vai aprender a jogar o jogo".
Num verão, eu joguei quase todos os dias, o dia inteiro e então aprendi a jogar o jogo. Compreendi que a única forma de ganhar
é se comprometendo totalmente à aquisição. Aprendi que o dinheiro e as posses são as formas de continuar pontuando. Ao final daquele verão, tornei-me mais impiedoso que minha avó. Estava pronto para dobrar as regras para ganhar o jogo. Naquele outono, me sentei para jogar com ela. Tomei tudo que ela tinha. Eu a observei entregar seu último dólar e desistir em completa derrota.
E então ela tinha algo a mais para me ensinar.
Então ela disse:
"agora tudo volta para a caixa. Todas aquelas casas e hotéis. Todas as ferrovias e utilidades públicas.
Todas as propriedades e todo esse dinheiro maravilhoso. Agora tudo volta para a caixa. Nada disso era realmente seu.
Você se empolgou muito com isso por um tempo. Mas tudo já estava aqui muito antes de você se sentar à mesa e continuará aqui depois de você ir embora -- jogadores vem e vão.
Casas e carros...
Títulos e roupas...
até o seu corpo".
Porque o fato é que tudo que eu pego, consumo e guardo voltará para a caixa e irei perder tudo. Então você precisa se perguntar quando finalmente receber a melhor promoção quando fizer a melhor compra quando comprar a melhor casa quando tiver segurança financeira e subido a escada do sucesso até o degrau mais alto que você pode alcançar...
E a emoção acabar

e ela vai acabar...
e depois?

Quão longe você precisa seguir nesta estrada
até perceber aonde ela leva. Certamente você entende que nunca será o bastante.

Portanto, você precisa se perguntar:
o que importa?"

Do filme: (zeitgeist: Moving Foward) de Peter Joseph

quinta-feira, 21 de julho de 2011

jhon cheever

1955_Você encontra na rua um colega de turma ou alguém do gênero e aceita um convite para jantar. Assim que põe o pé no apartamento, repara que algo está errado. Sua anfitriã andou chorando e seu antigo colega parece bêbado. Não a ponto de cambalear, mas demonstra aquela agressividade típica de alguns bêbados. Se você recusa os amendoins, ele fica sarcástico. Antes de chegarem à mesa do jantar, ele já começou a agredir, a difamar e a ridicularizar a esposa, e no meio da sopa ele te diz que ela é uma puta nojenta. Ela dá a impressão de ser uma mulher simples e de temperamento doce. Enquanto ela chora e ele a acusa de indecências improváveis de todo tipo, você pega o chapéu, o casaco e vai embora no meio do jantar. Dez ou quinze anos se passam você é abordado de novo pelo velho colega. Ele está acompanhado da mesma esposa, e analisando com curiosidade o rosto dela você tem a impressão de que ela está feliz. O apartamento deles, por acaso, fica perto do seu, de modo que você divide o táxi com os dois e sobe para beber alguma coisa. Tudo está agradável há uns dez minutos quando o seu velho colega pergunta à esposa por que ela não prepara uns sanduíches; por que ela não levanta a bunda gorda e vai fazer algo que preste. Ela começa a soluçar e vai à cozinha, e quando você pega o chapéu e o casaco ele começa a gritar de longe que ela é uma vadia, uma puta nojenta, uma vagabunda.